Enfim de volta. Não que eu não goste de estar fora, comentei disso no último. Só prefiro aqui, assim. Aconchego, talvez. É bem verdade que se paro e fecho os olhos, consigo sentir o balanço de uma turbulência leve, culpa daquelas malditas doze horas de avião.
Mas não dá pra falar que não serviu pra nada. Lá era distante e diferente, mas serviu pra eu entender um pouquinho mais as pessoas daqui mesmo, que eu julgava saber perfeitamente como eram.
A distância corrói, mas é um ótimo psicólogo, dizem. Prefiro não ter esse analista, por mais funcional que seja. Bom, como dizia um velho amigo meu que a distância corrompeu:
Cada um acha o que pensa.
"O garoto parecia seguir suas próprias pegadas, deixadas há algum tempo naquele pedacinho de céu. Pisava cuidadosamente por cima da grama, sentindo o fofo farfalhar das folhas sob seus pés. O sol ainda pairava no céu, num início de fim de tarde. 'Início do fim' repetiu mentalmente o garoto. Lhe encantava, o paradoxo. Continuou caminhando por mais algum tempo, até conseguir atravessar a pracinha onde se encontrava. Fez questão de sair pulando o portãozinho de madeira, como costumavam fazer. Agora já era possível ouvir o barulho calmo das ondas beijando as pedras. Não era um lugar bonito, ele tinha de concordar. Talvez poético, mas não bonito. Logo após o portãozinho, se estendia um extenso corredor de terra batida, que terminava num muro baixo. Aquele era o lugar.
Demorou um pouco para começar a atravessar o caminho de terra. Resolveu tirar os sapatos, só para sentir o chão quente. O fez. algumas pedrinhas de passado irritaram seus pés. Uma fagulhada de saudades atingiu seu peito. Ele prosseguiu.
Não fazia muito tempo, é verdade. Um ano, talvez dois. Parecia menos. A ferida ainda estava ligeiramente aberta em seu peito. Prosseguiu pelo caminho, fazendo força com os pés para deixar marcas. Lembrou das risadas vitoriosas de quem conseguia deixar a maior pegada. Ele sempre deixava ela ganhar, e ela sempre soube. Era uma competição totalmente fajuta, e ele não se importava em perder. Agora estava bem próximo ao muro de pedra. Olhou para o céu, a fim de checar através do sol quanto tempo ainda lhe restava. Agora ele já ameaçava se esconder no fundo do mar, o que fez com que o garoto corresse um pouco. Enfim chegou.
O muro estava exatamente igual como eles haviam deixado da última vez. Frio. Frio, mas carregado. Carregado de sonhos e sentimentos. De promessas. Carregado de histórias. Hesitou por um momento, mas sentou. Olhou para baixo. A queda devia ser de mais ou menos dez metros. Sentou de modo que seus pés ficassem pendurados à mercê dos ventos, balançando sobre as rochas e as ondas agitadas. Era a visão mais bela que ele já tivera do mar.
Ficou ali, contemplando o início do fim por um momento, até criar coragem para apalpar os bolsos. Colocou a mão relutante lá dentro e acariciou o objeto pequeno. O anel parecia pesar muito mais do que realmente pesava, muito mais do que no dia quando ele havia feito as promessas mais loucas de sua vida. Aproximou o anel da boca e disse baixinho, como uma confissão:
'Eu ainda sinto sua falta'.
Atirou o anel no mar, e observou a pequena jóia ser levada por uma marola tranquila e bater contra uma das rochas. Uma lágrima fujona escapou do rosto duro e frio do garoto. Ele a enxugou rapidamente, antes que o muro, o mar ou as rochas a vissem. Então levantou o olhar para o céu. O sol se despediu, solenemente, e se pôs, debaixo d'água, bem ao lado do anel. O garoto retribuiu a despedida e nunca mais voltou."
Nem a distância é capaz de apagar a nossa história-.