domingo, 29 de agosto de 2010

Leave Before the Lights Come On

Lúcido, porém cruel. No fundo gosto de ler coisas desse tipo, e acabei de me deparar com uma. Piegas, porém real. Dizem que amar é simplesmente se importar com a felicidade do outro, não importa o quão doloroso seja para nós. Pode ser verdade, pra mim, amar é realmente se importar com a felicidade do outro. Mas a partir do momento em que você está excluído dessa felicidade, ou não é mais o suficiente para fazer a outra pessoa alcançar essa felicidade, não tem como não ficar no mínimo chateado. Aí entra a auto-preservação.
Mas, mais do que isso, se uma pessoa deixa de te amar, assim, de uma hora pra outra. O que isso quer dizer? Segunda essa teoria, quer dizer que ela já não se importa mais com a sua felicidade e está agora em busca da felicidade dela própria. Isso mostra um completo corte de relação.
Não?
Lúcido, porém cruel.
No fundo, acho que esta teoria está furada.




"'Até quando vai ser assim? Você sabe que foi você quem criou isso, não foi? Sabe que tudo que estamos passando é fruto da sua insegurança, da sua falta de caráter, da sua auto-preservação idiota. Sabe que não precisava ser assim, que não era necessária tanta tempestade em copo d'água, que as coisas sempre voltam pro seu lugar. Não dá mais, você sabe que não dá, eu sei que não dá. O que fazemos agora? Damos as mãos e fingimos que está tudo bem? Porque é isso que sempre fazemos, sempre atropelamos qualquer orgulho ou qualquer solução socialmente aceitável. Colocamos uma pedra no que passou e pronto. Depois vem as cobranças. E as desistências. Não dá, definitivamente não dá, me diz, até quando vai ser assim?'
As palavras atropelaram a língua da garota e se desferiram como baques surdos na face do garoto. Soaram cansadas, desesperadas, e não dramáticas. Ele se levantou e virou-se em sua direção.
'A gente não tá mais sozinho.'
Foi único jeito dele explicar a ela de que não via solução.
A garota concordou. Virou as costas e se foi."



-Por quanto tempo só nós dois?-.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Feeling this

Esquisito como perdemos o interesse nas coisas. E chega sem avisar, sempre. No fundo, odeio quando isso acontece, odeio ser uma pessoa muito recorrente, ambulante, mutável. Preferia ficar do mesmo jeito sempre, traria menos problemas e mais certezas.
Querer nunca foi poder, dizem.


"Um sorriso um pouco torto encheu os olhos da menina de brilho. Ela gostava daquele sorriso. Se sentia segura, ainda mais quando ela mesma o provocava. Chegou um pouco mais perto do garoto, e se recolheu em seu peito. Estavam deitados num pequeno sofá, no alto de um apartamento iluminado apenas pela luz da lua. 'O que nos trouxe até aqui?' o garoto tirou o sorriso do rosto. 'O que?' ela fechou os olhos e beijou seu peito. 'Medo ou coragem?'. Ela abriu os olhos, levantou a cabeça e fitou suas pupilas. Ele repassou os últimos meses na cabeça. O modo como se conheceram, como ela o encantara. Lembrou de como queria sentir seu beijo a todo momento. Olhou de volta em seus olhos. Esperou-a insistir. 'Hein?' 'O que?' 'Medo ou coragem?'. 'Talvez nenhum dos dois' sibilou.
Ela estranhou. 'Nenhum?' 'Nenhum' ele concluiu.
A garota sorriu, beijou-lhe levemente os lábios e recostou a cabeça novamente em seu peito, bem a tempo de ver surgir na boca dele o mesmo sorriso torto.
'Talvez nenhum dos dois.'
Era tudo que ela precisava ouvir."


-Come as you are -..

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Todas as Noites

Ia ser totalmente fantástico se a nostalgia do verão fosse esquecida no inverno, ou se a ordem natural das coisas se alterasse quando necessário. Ou se qualquer prova passasse desapercebida, ou se as pessoas cuidassem mais de si próprias do que dos outros, quando não fosse requerido.
No fundo é uma merda, mas a gente se acostumou.
Chorar por isso é que não dá né?
Melhor se acostumar logo e dá tudo certo.


"Tente imaginar. O céu está estranhamente claro, há uma lua enorme e cheia, bem visível. Mas não é convidativo. Consegue imaginar? Uma ou outra nuvem, fazendo um gracioso contorno em volta da lua. E estrelas, o máximo que as luzes da cidade nos deixam ver. Salpicadas no lusco-fusco azul e negro. Está acompanhando? Uma das estrelas olha em volta, tenta brilhar com um pouco mais de intensidade, como quem quer chamar atenção. pisca uma, duas, três vezes. Desiste. A lua olha, e se balança, triste. O vento do leste se faz presente, ruidoso e um pouco assustador. Chacoalha a estrela. Ela se recompõe. Consegue visualizar? A estrela pequena, tentando ser lua, se esforçando cada vez mais pra ser notada. E dá uma pirueta, duas, três vezes. Nada. Uma nuvem a encobre. Passa. Ela olha de novo, primeiro para os lados, depois para baixo. Se apaga um pouco. E uma lágrima escapa em forma de chuva, uma, duas, três vezes. Ela as enxuga. E cai. Bem na minha frente.
Acompanho o ocorrido. Baixo o olhar e ouço o baque surdo da pequena estrela. Sinto cheiro de sal e noite. Cheiro de tristeza.
Conseguiu imaginar? Então me responda;
Custa tentar ser apenas o que se é?"



- It's coming down -.

domingo, 8 de agosto de 2010

Get Off of My Cloud

É curioso. Já perceberam que a palavra 'Romance' tem dois sentidos que cabem num só. Um filme de amor, com uma história de amor, frases de amor e todas essas melosidades são encontrados nas prateleiras de locadora na parte de 'Romance'. Ninguém discorda, certo?
Certo.
Num livro, quando vemos a palavra 'Romance' escrita na capa quer dizer alguma coisa fictícia, não real, que não realmente aconteceu. Certo?
Certo.
Seguindo essa lógica, um 'Romance', com histórias de amor, frases de amor e todas essas melosidades estaria muito próximo do segundo conceito de Romance. Ou seja, nunca existiria.
Tá, chega de blábláblá. O ponto é; acho que um romance é realmente um romance. Quase não acontece, é praticamente ficção, sempre. Não tem mais espaço pra eles na vida real.
Um romance é um romance.
Gostei disso.
Sou dramático, eu sei.




"E eu me recuso. Me nego, com todas as minhas forças. Não só nego a mim como nego aos outros, me nego a fazer coisas pros outros. Faço as coisas pra mim. E só pra mim. Vejo pilhas e pilhas de livros ao meu lado. Jamais irei lê-los, tenho nojo de tocá-los, cheios de palavras. Palavras não são mais do que sentimentos cuspidos, os piores. Me nego a viver essa vida. Me nego a me calar. Mas me nego a me revoltar. Me nego a tudo. Me nego aos contatos, às frases prontas, desisto dos sorrisos e de suas ferrugens, desisto das manhas, das manhãs, das maças e das maçãs. Desisto da música. Dos sons. Das imagens. Desisto dos sentidos, principalmente do paladar, a mais doce das frutas tem gosto de carpete velho. Nossa existência de gosto de carpete velho. Eu sou um carpete velho. Não, me nego a ser um carpete velho. Me nego a subir a rua, me nego a descer a rua, me nego a me importar. Me nego a sentir tristeza, torpor, me nego a me render a qualquer sutileza ou agrado. Me nego a acreditar, me nego aos oblíquos, me nego aos professores e aos alunos. Me nego às ordens e às rebeldias. me nego a saber o real sentido da palavra 'negar'. Só me nego. Só isso.
Na verdade, me nego a amar.
O resto é consequência."



-I might be a paranoid, but not an android-.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Where I End and You Begin

E as coisas continuam acontecendo de maneiras absurdas. Pessoas tomando decisões completamente inesperadas. Entreouvi uma vez, não lembro onde: "é próprio dos sábios mudar de opinião". Claro, mas também é necessário o mínimo de personalidade, a não ser que sua personalidade seja "mudar de opinião diversas vezes".
Mas aí seria uma personalidade fraca hehe.
Tá, reflexão idiota.



"'Tem alguém aí?' A pergunta saiu ecoando por entre as árvores, corrimões, degraus de concreto e pedaços de terra. Um ruído metálico havia, há pouco, invadido abruptamente seus ouvidos, como se machucasse um dos imensos canos. Olhou no relógio. Três e vinte da manhã, e a lua quase inteiramente cheia. Era uma praça estranha, nunca havia estado ali de noite. Não sabia se podia chamar de praça, era mais um barranco, com alguns bancos e uma escada para subir, fazendo caminhos tortuosos por entre a folhagem. Não sabia ao certo como havia chegado daquele lado do bairro, a verdade é que suas andanças noturnas estavam passando do limite. 'Só mais essa noite', ele sempre pensava.
'Tem alguém aí?' Repetiu. Sem resposta. Estava prestes a desistir seguir andando quando novamente, o som, mais alto dessa vez. Parecia um diapasão desafinado, foi a melhor definição que ele encontrou. Agora o som o assustou, fazendo sua espinha estremecer um momento. 'Tem alguém...' desistiu. Resolveu subir. Passos rápidos para não desistir no caminho. Parou no décimo degrau. A copa de uma das árvores baixas balançava com o vento, de modo que ricocheteava em seu braço, vez ou outra. Por um momento, quem visse de baixo não saberia o que era ele o que era praça, tamanha a escuridão. Talvez nem ele próprio soubesse o que era ele e o que era praça. O som se fez novamente presente, ainda mais forte, mas não mais próximo. O garoto olhou em volta. 'Por favor' já era uma súplica. O ruído veio novamente. E mais uma vez. E outra. Ficou ritmado. Lento, mas ritmado, uma mesma nota. Ecoava cada vez mais alta, fazendo a cabeça do garoto doer. Levou a mão aos ouvidos. 'Chega, chega!' Quis sair correndo, quis ir embora. Ajoelhou no chão. Agora o som sufocava o som de sua respiração. Mais alto e mais alto, agora mais perto, até o momento que, junto com o ruído metálico, uma fagulhada atingiu sua cabeça, lhe dando a sensação de que seu próprio corpo era o flagelado, e todo feito de cobre ou ferro. Caiu. O garoto gritou, soltou um berro do fundo das entranhas, em completo desespero, antes de cair, totalmente inconsciente.

***

A garota chegou um pouco mais perto do primeiro degrau da praça. Aquilo a fascinava, a beleza da grotesca vegetação urbana. Contemplou por um momento. Estava prestes a ir embora, quando um som estranhamente metálico soou do centro da praça, seguido por um grito abafado e opaco. Ela esperou um momento. 'Tem alguém aí?' perguntou?
Nenhum som. Havia sido o último.
A garota deu de ombros, e recomeçou a andar.





A gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu?-.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Depois do Começo

Enfim de volta. Não que eu não goste de estar fora, comentei disso no último. Só prefiro aqui, assim. Aconchego, talvez. É bem verdade que se paro e fecho os olhos, consigo sentir o balanço de uma turbulência leve, culpa daquelas malditas doze horas de avião.
Mas não dá pra falar que não serviu pra nada. Lá era distante e diferente, mas serviu pra eu entender um pouquinho mais as pessoas daqui mesmo, que eu julgava saber perfeitamente como eram.
A distância corrói, mas é um ótimo psicólogo, dizem. Prefiro não ter esse analista, por mais funcional que seja. Bom, como dizia um velho amigo meu que a distância corrompeu:
Cada um acha o que pensa.



"O garoto parecia seguir suas próprias pegadas, deixadas há algum tempo naquele pedacinho de céu. Pisava cuidadosamente por cima da grama, sentindo o fofo farfalhar das folhas sob seus pés. O sol ainda pairava no céu, num início de fim de tarde. 'Início do fim' repetiu mentalmente o garoto. Lhe encantava, o paradoxo. Continuou caminhando por mais algum tempo, até conseguir atravessar a pracinha onde se encontrava. Fez questão de sair pulando o portãozinho de madeira, como costumavam fazer. Agora já era possível ouvir o barulho calmo das ondas beijando as pedras. Não era um lugar bonito, ele tinha de concordar. Talvez poético, mas não bonito. Logo após o portãozinho, se estendia um extenso corredor de terra batida, que terminava num muro baixo. Aquele era o lugar.
Demorou um pouco para começar a atravessar o caminho de terra. Resolveu tirar os sapatos, só para sentir o chão quente. O fez. algumas pedrinhas de passado irritaram seus pés. Uma fagulhada de saudades atingiu seu peito. Ele prosseguiu.
Não fazia muito tempo, é verdade. Um ano, talvez dois. Parecia menos. A ferida ainda estava ligeiramente aberta em seu peito. Prosseguiu pelo caminho, fazendo força com os pés para deixar marcas. Lembrou das risadas vitoriosas de quem conseguia deixar a maior pegada. Ele sempre deixava ela ganhar, e ela sempre soube. Era uma competição totalmente fajuta, e ele não se importava em perder. Agora estava bem próximo ao muro de pedra. Olhou para o céu, a fim de checar através do sol quanto tempo ainda lhe restava. Agora ele já ameaçava se esconder no fundo do mar, o que fez com que o garoto corresse um pouco. Enfim chegou.
O muro estava exatamente igual como eles haviam deixado da última vez. Frio. Frio, mas carregado. Carregado de sonhos e sentimentos. De promessas. Carregado de histórias. Hesitou por um momento, mas sentou. Olhou para baixo. A queda devia ser de mais ou menos dez metros. Sentou de modo que seus pés ficassem pendurados à mercê dos ventos, balançando sobre as rochas e as ondas agitadas. Era a visão mais bela que ele já tivera do mar.
Ficou ali, contemplando o início do fim por um momento, até criar coragem para apalpar os bolsos. Colocou a mão relutante lá dentro e acariciou o objeto pequeno. O anel parecia pesar muito mais do que realmente pesava, muito mais do que no dia quando ele havia feito as promessas mais loucas de sua vida. Aproximou o anel da boca e disse baixinho, como uma confissão:
'Eu ainda sinto sua falta'.
Atirou o anel no mar, e observou a pequena jóia ser levada por uma marola tranquila e bater contra uma das rochas. Uma lágrima fujona escapou do rosto duro e frio do garoto. Ele a enxugou rapidamente, antes que o muro, o mar ou as rochas a vissem. Então levantou o olhar para o céu. O sol se despediu, solenemente, e se pôs, debaixo d'água, bem ao lado do anel. O garoto retribuiu a despedida e nunca mais voltou."




Nem a distância é capaz de apagar a nossa história-.