segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Let's Go Away For a While

É tempo de coisas novas. Digo, no final de ano é sempre tempo de findar as coisas empoeiradas e começar coisas novas. As pessoas gostam de fazer isso ouvindo musicas natalinas, acendendo luzes e brindando a não sei bem o que. Não julgo, faço parte disso, e gosto, apesar de não ver tanto sentido assim.
Só acho que, voltar aqui de tanto tempo significa que é hora de tirar o pó das coisas velhas, das idéias velhas, é hora de começar de novo, de novo.

Porque garanto, tem muita poeira espalhada por aqui.

Vamos ver se consigo limpar essa bagunça.


"Meus olhos estavam a dois minutos de se fecharem. Era um momento propício, garanto. Recostado, ou melhor, largado completamente na cadeira desconfortável e com os pés esticados, não havia nada em minha mente a não ser o ruído do motor e dos freios do ônibus no qual me encontrava. Era o último, como eu sempre pegava, perto da uma da manhã. Quase vazio, a não ser por um casal, que estava longe demais para minha vista alcançar, um garoto jovem que olhava pela janela, e um bêbado que não sentava, jazia. E lá estava eu.

Já disse, a situação era propícia, e resolvi colocar em prática minha primeira vontade. Ameacei fechar os olhos, mas estes foram subitamente escancarados de susto com uma freada brusca do veículo. Todos os ínfimos viajantes olharam para a porta, enquanto subia uma garota. Bela, pensei. Esbelta, talvez um pouco demais. Um olho roxo. Pernas finas e estremecidas. Um sorriso nervoso ao passar por mim e me olhar nos olhos. Estremeci. Sentou na dupla de bancos ao lado do meu, encostada na janela. Dessa distância conseguia vê-la melhor. O olho não estava roxo, era maquiagem, completamente borrada. Não sei qual das alternativas me ajudaria a dormir melhor.

Tentei não olhar muito. Eu provavelmente desceria do ônibus logo e nunca mais veria a cara daquelas pessoas. Era assim, normalmente, na outra semana era uma mulher. Bem apessoada, aparentava uns trinta anos. Andava com o filho, recém nascido. Até agora não sei o que estava fazendo ali, naquele último ônibus que atravessa a cidade à uma da manhã. Só a ralé dessa merda cinza pega aquele ônibus. Eu sei bem, por experiência. Tentei esquecer a garota ao meu lado, mas estava claramente atraído. Não que fosse incomum, essa situação, mas dessa vez parecia diferente. Me esforcei pra não olhar, tentei focar minhas pupilas na barata morta virada de cabeça para baixo uns três bancos pra frente. Suspeito que ela tenha se matado, e não sido pisada. Nem as baratas agüentam esse inferno.

Quase-concentração fez minhas pálpebras quererem desabar de novo, mas de novo fui impedido por um som. Dessa vez, um celular. Apalpei os bolsos. Não era o meu, eu sabia. Olhei para o lado num pulo. Era o dela. A garota quase arrancou o aparelinho de sua calça, com as mãos tremendo freneticamente. Atendeu. "Alô? Mãe? Mãe, até que enfim, eu te liguei milhares de vezes! Eu sei, mãe, eu sei que a gente não se fala faz tempo, desculpa não ligar. Está tudo bem, eu estou aqui em São Paulo, sabe, fazem uns três meses." O diálogo tendia a ficar desinteressante, mas meu peito palpitava alvoroçado, como quem espera um grande final para justificar os meios.

"Aqui é grande... muito maior que aí. No teste? Sim, mãe, era sobre isso que eu queria conversar" Sua voz estremeceu muito nesse momento da conversa. Eu melhor me recostei na cadeira, como quem via um espetáculo. "Me chamaram, mãe, é uma novela. Sim, da Globo. Das seis, não das oito. Sabe, disseram que a vaga é minha, mas eu preciso emagrecer. Todo mundo engorda na frente das câmeras, sabe?". Sem nem ao menos disfarçar, medi a garota da cabeça aos pés. Os seios eram perfeitos, ainda que um pouco desproporcionais ao seu corpo muito magro. Ela não engordaria na frente da câmera nem se comesse um boi. Estranhei. "Não tenho tempo pra fazer dieta, Mãe. Eu preciso de um remédio. É, um remédio. Não posso comprar aqui, precisa de receita, e a senhora tem contato com um cara da farmácia aí no interior... sabe, na cidade grande ninguém é amigo do dono da farmácia, não dá pra pedir esse tipo de coisa, eu preciso desse remédio, mãe..."

Eu estava entendendo. Ou quase. Remédio? Eu precisava de um último aviso, uma última prova para a constatação final. Era como um filme.

"Obrigado, Mãe. Não, Mãe, não vou voltar pra casa, aqui é meu lugar, eu descobri. Você vai me ver na TV logo, é com atores famosos, você vai gostar. Ok, mãe, um beijo, obrigada!". E desligou. Suspirou e recostou no banco, tranqüila. Desiludido, desisti.

O ônibus parou, nesse momento. Era meu ponto, meu momento de descer e esperar o dia nascer pra esconder a podridão que a noite esclarecia. Levantei. Passei pela garota, e acidentalmente, esbarrei em sua perna, no meio do corredor. Ouvi um baque seco. Olhei para o chão.

Uma caixinha de remédio, tarja preta. Virada para cima e rindo da minha cara. Olhei nos olhos da garota. Não era maquiagem. Estava mesmo roxo. Ela retribuiu o olhar, em pânico. Tentei ser complacente, mas um sorriso não saiu. Nossos braços, ao mesmo tempo, se dirigiram ao chão para pegar a caixa, e eu soltei um sincero "deixa comigo". Consegui ver seu braço esticado. Menos a dobra do antebraço, que estava coberta por uma ferida roxa. O resto da pele estava salpicado de furinhos minúsculos. Peguei a caixa. Quase vazia. Minhas provas, para comprovar minha teoria, apareceram nos acréscimos. Depois dos créditos, como num bom filme.

"Obrigada", ela sussurrou. Sorri torto. "Tudo bem". Segurei meus olhos nos dela por mais dois segundos, e saí. Era sempre assim, eu nunca sabia onde as coisas iam parar. Parei de me preocupar, provavelmente esqueceria a história na semana seguinte. Pus-me a andar, por sobre a podridão dos muros de concreto, fazendo o possível para não me jogar nela, de cabeça."

sábado, 11 de setembro de 2010

Novo Prazer

É comum ter medo do novo, tão comum quanto ter vontade de esquecer o velho. Não sei definir se é um paradoxo, para mim são duas coisas totalmente distintas. Sempre pensei que há um 'ponto de compensação' na nossa vida, sabe, podemos ficar entre o velho e o novo, podemos simplesmente ficar.
Claro, é o jeito mais chato de viver.
À parte disso, queremos esquecer o velho justamente porque é velho e gasto, já não é mais confortante. É só chato. E o novo... bom, é novo, não dá pra saber o que esperar, e por mais convidativo que pareça sempre ficamos com um pé atrás.
Mas, por favor, se alguém estiver lendo. Vamos viver logo o novo, porque o velho já deu no saco.

Adoro escrever coisas óbvias.




"'Você vem?' A pergunta tinha uma musicalidade sublime nos ouvidos da garota. Aguçava ainda mais seu sentimento impetuoso, suas loucuras. Se segurou, mas sabia que não aguentaria muito mais. 'Pra onde?' perguntou. O rapaz chegou um pouco mais perto, e colocou carinhosamente a mão em seu pescoço, alisando os cabelos que lhe cobriam a nuca. Os pelos de seu corpo gritaram, desconcertados. 'Comigo' ele respondeu. Pronto. Lá estava ela, a um passo da perdição. Sabia que não era o certo, mas era impossível. A partir dali, o cenário do lado de fora do colégio deixou de ser calçada cinza e virou um plano de fundo onírico, entre o azul e o vermelho. Ela fechou os olhos e segurou um suspiro que ela sabia, seria longo demais. Tentou não pensar com o entre-as-pernas, tentou pensar com a cabeça, com a razão. Tentou. Se esforçou.
'Não posso' respondeu com um resmungo. Ele sorriu um sorriso amarelo, chegando um pouquinho mais perto. Não ia insistir, e ela sabia que ele não ia insistir. Ficaram por um minuto em silêncio, apenas a respiração ofegante da garota afagava o rapaz, enquanto a dele continuava completamente sóbria. 'É só uma criança' pensou. Sorriu amarelo de novo com o pensamento. 'Tudo bem então' disse por fim. Se aproximou do rosto da menina e deu-lhe um beijo no canto da boca. As pernas jovens e cor-de-rosa estremeceram e bambearam. Foi a despedida. Virou as costas e ainda deu-lhe uma última olhadela por cima do ombro, antes de seguir seu caminho, deixando a menina ali parada. A calçada retomava seus tons originais de cinza forte e bege desbotado, enquanto ela ficaria ali. Estática, úmida e perdida em seus próprios sonhos.



-Um sonho que acordado é muito mais que dormindo-.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Map of the Problematique

Não é incomum pensarem que não ver o lado otimista da coisa é ser infeliz. Não vou dizer que é simplesmente ver a realidade, apesar de ser o que penso. Pra mim, não ver o lado otimista da coisa é não tentar achar soluções em demasiado. Lembro-me de ouvir alguém dizer que tentar explicar a vida é muito pior do que vivê-la (provavelmente quem disse isso queria dar um tom mais profundo à frase do que o que eu utilizei, mas ainda sim...). Sendo assim, não consigo nem imaginar quantas vezes é melhor deixar as coisas como estão do que tentar sintetizar todas as respostas do mundo numa única ação.
Covarde?
Um pouco.
Mas pelo menos estou tranquilo.


"'Agora' a voz da garota soou rouca e ofegante, oprimida pelo peso do garoto sobre seus seios. A volúpia luxuriosa dançava livremente por entre os poucos móveis do quarto sujo e velho. 'Quase, só mais um momento' a garota suplicava entre gemidos pelos movimentos repetitivos das ancas do rapaz, sempre ritmados, cada vez mais rápidos.
Ele não ousava proferir uma só lúcida palavra. Em seu corpo, o desejo massacrava qualquer tipo de razão, e tudo que se sobressaía era o roçar de suas mãos pela pele macia das curvas da jovem. O corpo que ele tocava jazia em completo êxtase, rígido, a não ser pelos lábios, que eram pressionados por seus dentes, contendo a chegada avassaladora de um gozo intenso.
Desistiu de segurar. A moça apertou as costas do rapaz e soltou um gemido alto e arrastado, deixando escapar todo o ar de seus pulmões. No corpo do rapaz, o desejo ainda massacrava a razão.
Em seu corpo. Mas não em sua mente.
Em sua mente, a idéia estava clara e cristalina, e a lucidez trabalhava sem descanso. O plano estava lá, fresco e decorado. Pegar o objeto debaixo do travesseiro, sob a cabeça dela. Era a parte difícil. O resto era simples.
Não parou as estocadas, prolongando o grito louco da garota, e lhe dando tempo suficiente para encontrar seu próprio desejo debaixo do travesseiro. Sentiu-o. Segurou a lâmina reluzente, e numa última estocada, apunhalou o pescoço pecaminoso da moça, interrompendo o mais animalesco dos orgasmos, empurrando de volta à seus pulmões frios o resto do ar que ela insistia em soltar. A palidez tomou conta da face de ambos, enquanto do rosto de um deles, escapavam tosses de sangue, sujando os lábios agora roxos, e fazendo o mais belo contraste com sua face alva. As tosses prosseguiam. Sempre ritmadas. Cada vez mais lentas.
O rapaz aguardou a morte da garota antes de terminar seu próprio ato sexual, agora sombrio e mórbido. Proferiu seu próprio suspiro, e deitou ao lado do cadáver.
A Volúpia luxuriosa encerrou sua dança, se dirigiu até a porta, abriu-a. Observou a Vingança entrar devagar, deu-lhe boas vindas e saiu, a passos largos".



-It seems so unlikely in this day and age-.

domingo, 29 de agosto de 2010

Leave Before the Lights Come On

Lúcido, porém cruel. No fundo gosto de ler coisas desse tipo, e acabei de me deparar com uma. Piegas, porém real. Dizem que amar é simplesmente se importar com a felicidade do outro, não importa o quão doloroso seja para nós. Pode ser verdade, pra mim, amar é realmente se importar com a felicidade do outro. Mas a partir do momento em que você está excluído dessa felicidade, ou não é mais o suficiente para fazer a outra pessoa alcançar essa felicidade, não tem como não ficar no mínimo chateado. Aí entra a auto-preservação.
Mas, mais do que isso, se uma pessoa deixa de te amar, assim, de uma hora pra outra. O que isso quer dizer? Segunda essa teoria, quer dizer que ela já não se importa mais com a sua felicidade e está agora em busca da felicidade dela própria. Isso mostra um completo corte de relação.
Não?
Lúcido, porém cruel.
No fundo, acho que esta teoria está furada.




"'Até quando vai ser assim? Você sabe que foi você quem criou isso, não foi? Sabe que tudo que estamos passando é fruto da sua insegurança, da sua falta de caráter, da sua auto-preservação idiota. Sabe que não precisava ser assim, que não era necessária tanta tempestade em copo d'água, que as coisas sempre voltam pro seu lugar. Não dá mais, você sabe que não dá, eu sei que não dá. O que fazemos agora? Damos as mãos e fingimos que está tudo bem? Porque é isso que sempre fazemos, sempre atropelamos qualquer orgulho ou qualquer solução socialmente aceitável. Colocamos uma pedra no que passou e pronto. Depois vem as cobranças. E as desistências. Não dá, definitivamente não dá, me diz, até quando vai ser assim?'
As palavras atropelaram a língua da garota e se desferiram como baques surdos na face do garoto. Soaram cansadas, desesperadas, e não dramáticas. Ele se levantou e virou-se em sua direção.
'A gente não tá mais sozinho.'
Foi único jeito dele explicar a ela de que não via solução.
A garota concordou. Virou as costas e se foi."



-Por quanto tempo só nós dois?-.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Feeling this

Esquisito como perdemos o interesse nas coisas. E chega sem avisar, sempre. No fundo, odeio quando isso acontece, odeio ser uma pessoa muito recorrente, ambulante, mutável. Preferia ficar do mesmo jeito sempre, traria menos problemas e mais certezas.
Querer nunca foi poder, dizem.


"Um sorriso um pouco torto encheu os olhos da menina de brilho. Ela gostava daquele sorriso. Se sentia segura, ainda mais quando ela mesma o provocava. Chegou um pouco mais perto do garoto, e se recolheu em seu peito. Estavam deitados num pequeno sofá, no alto de um apartamento iluminado apenas pela luz da lua. 'O que nos trouxe até aqui?' o garoto tirou o sorriso do rosto. 'O que?' ela fechou os olhos e beijou seu peito. 'Medo ou coragem?'. Ela abriu os olhos, levantou a cabeça e fitou suas pupilas. Ele repassou os últimos meses na cabeça. O modo como se conheceram, como ela o encantara. Lembrou de como queria sentir seu beijo a todo momento. Olhou de volta em seus olhos. Esperou-a insistir. 'Hein?' 'O que?' 'Medo ou coragem?'. 'Talvez nenhum dos dois' sibilou.
Ela estranhou. 'Nenhum?' 'Nenhum' ele concluiu.
A garota sorriu, beijou-lhe levemente os lábios e recostou a cabeça novamente em seu peito, bem a tempo de ver surgir na boca dele o mesmo sorriso torto.
'Talvez nenhum dos dois.'
Era tudo que ela precisava ouvir."


-Come as you are -..

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Todas as Noites

Ia ser totalmente fantástico se a nostalgia do verão fosse esquecida no inverno, ou se a ordem natural das coisas se alterasse quando necessário. Ou se qualquer prova passasse desapercebida, ou se as pessoas cuidassem mais de si próprias do que dos outros, quando não fosse requerido.
No fundo é uma merda, mas a gente se acostumou.
Chorar por isso é que não dá né?
Melhor se acostumar logo e dá tudo certo.


"Tente imaginar. O céu está estranhamente claro, há uma lua enorme e cheia, bem visível. Mas não é convidativo. Consegue imaginar? Uma ou outra nuvem, fazendo um gracioso contorno em volta da lua. E estrelas, o máximo que as luzes da cidade nos deixam ver. Salpicadas no lusco-fusco azul e negro. Está acompanhando? Uma das estrelas olha em volta, tenta brilhar com um pouco mais de intensidade, como quem quer chamar atenção. pisca uma, duas, três vezes. Desiste. A lua olha, e se balança, triste. O vento do leste se faz presente, ruidoso e um pouco assustador. Chacoalha a estrela. Ela se recompõe. Consegue visualizar? A estrela pequena, tentando ser lua, se esforçando cada vez mais pra ser notada. E dá uma pirueta, duas, três vezes. Nada. Uma nuvem a encobre. Passa. Ela olha de novo, primeiro para os lados, depois para baixo. Se apaga um pouco. E uma lágrima escapa em forma de chuva, uma, duas, três vezes. Ela as enxuga. E cai. Bem na minha frente.
Acompanho o ocorrido. Baixo o olhar e ouço o baque surdo da pequena estrela. Sinto cheiro de sal e noite. Cheiro de tristeza.
Conseguiu imaginar? Então me responda;
Custa tentar ser apenas o que se é?"



- It's coming down -.

domingo, 8 de agosto de 2010

Get Off of My Cloud

É curioso. Já perceberam que a palavra 'Romance' tem dois sentidos que cabem num só. Um filme de amor, com uma história de amor, frases de amor e todas essas melosidades são encontrados nas prateleiras de locadora na parte de 'Romance'. Ninguém discorda, certo?
Certo.
Num livro, quando vemos a palavra 'Romance' escrita na capa quer dizer alguma coisa fictícia, não real, que não realmente aconteceu. Certo?
Certo.
Seguindo essa lógica, um 'Romance', com histórias de amor, frases de amor e todas essas melosidades estaria muito próximo do segundo conceito de Romance. Ou seja, nunca existiria.
Tá, chega de blábláblá. O ponto é; acho que um romance é realmente um romance. Quase não acontece, é praticamente ficção, sempre. Não tem mais espaço pra eles na vida real.
Um romance é um romance.
Gostei disso.
Sou dramático, eu sei.




"E eu me recuso. Me nego, com todas as minhas forças. Não só nego a mim como nego aos outros, me nego a fazer coisas pros outros. Faço as coisas pra mim. E só pra mim. Vejo pilhas e pilhas de livros ao meu lado. Jamais irei lê-los, tenho nojo de tocá-los, cheios de palavras. Palavras não são mais do que sentimentos cuspidos, os piores. Me nego a viver essa vida. Me nego a me calar. Mas me nego a me revoltar. Me nego a tudo. Me nego aos contatos, às frases prontas, desisto dos sorrisos e de suas ferrugens, desisto das manhas, das manhãs, das maças e das maçãs. Desisto da música. Dos sons. Das imagens. Desisto dos sentidos, principalmente do paladar, a mais doce das frutas tem gosto de carpete velho. Nossa existência de gosto de carpete velho. Eu sou um carpete velho. Não, me nego a ser um carpete velho. Me nego a subir a rua, me nego a descer a rua, me nego a me importar. Me nego a sentir tristeza, torpor, me nego a me render a qualquer sutileza ou agrado. Me nego a acreditar, me nego aos oblíquos, me nego aos professores e aos alunos. Me nego às ordens e às rebeldias. me nego a saber o real sentido da palavra 'negar'. Só me nego. Só isso.
Na verdade, me nego a amar.
O resto é consequência."



-I might be a paranoid, but not an android-.