segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Let's Go Away For a While

É tempo de coisas novas. Digo, no final de ano é sempre tempo de findar as coisas empoeiradas e começar coisas novas. As pessoas gostam de fazer isso ouvindo musicas natalinas, acendendo luzes e brindando a não sei bem o que. Não julgo, faço parte disso, e gosto, apesar de não ver tanto sentido assim.
Só acho que, voltar aqui de tanto tempo significa que é hora de tirar o pó das coisas velhas, das idéias velhas, é hora de começar de novo, de novo.

Porque garanto, tem muita poeira espalhada por aqui.

Vamos ver se consigo limpar essa bagunça.


"Meus olhos estavam a dois minutos de se fecharem. Era um momento propício, garanto. Recostado, ou melhor, largado completamente na cadeira desconfortável e com os pés esticados, não havia nada em minha mente a não ser o ruído do motor e dos freios do ônibus no qual me encontrava. Era o último, como eu sempre pegava, perto da uma da manhã. Quase vazio, a não ser por um casal, que estava longe demais para minha vista alcançar, um garoto jovem que olhava pela janela, e um bêbado que não sentava, jazia. E lá estava eu.

Já disse, a situação era propícia, e resolvi colocar em prática minha primeira vontade. Ameacei fechar os olhos, mas estes foram subitamente escancarados de susto com uma freada brusca do veículo. Todos os ínfimos viajantes olharam para a porta, enquanto subia uma garota. Bela, pensei. Esbelta, talvez um pouco demais. Um olho roxo. Pernas finas e estremecidas. Um sorriso nervoso ao passar por mim e me olhar nos olhos. Estremeci. Sentou na dupla de bancos ao lado do meu, encostada na janela. Dessa distância conseguia vê-la melhor. O olho não estava roxo, era maquiagem, completamente borrada. Não sei qual das alternativas me ajudaria a dormir melhor.

Tentei não olhar muito. Eu provavelmente desceria do ônibus logo e nunca mais veria a cara daquelas pessoas. Era assim, normalmente, na outra semana era uma mulher. Bem apessoada, aparentava uns trinta anos. Andava com o filho, recém nascido. Até agora não sei o que estava fazendo ali, naquele último ônibus que atravessa a cidade à uma da manhã. Só a ralé dessa merda cinza pega aquele ônibus. Eu sei bem, por experiência. Tentei esquecer a garota ao meu lado, mas estava claramente atraído. Não que fosse incomum, essa situação, mas dessa vez parecia diferente. Me esforcei pra não olhar, tentei focar minhas pupilas na barata morta virada de cabeça para baixo uns três bancos pra frente. Suspeito que ela tenha se matado, e não sido pisada. Nem as baratas agüentam esse inferno.

Quase-concentração fez minhas pálpebras quererem desabar de novo, mas de novo fui impedido por um som. Dessa vez, um celular. Apalpei os bolsos. Não era o meu, eu sabia. Olhei para o lado num pulo. Era o dela. A garota quase arrancou o aparelinho de sua calça, com as mãos tremendo freneticamente. Atendeu. "Alô? Mãe? Mãe, até que enfim, eu te liguei milhares de vezes! Eu sei, mãe, eu sei que a gente não se fala faz tempo, desculpa não ligar. Está tudo bem, eu estou aqui em São Paulo, sabe, fazem uns três meses." O diálogo tendia a ficar desinteressante, mas meu peito palpitava alvoroçado, como quem espera um grande final para justificar os meios.

"Aqui é grande... muito maior que aí. No teste? Sim, mãe, era sobre isso que eu queria conversar" Sua voz estremeceu muito nesse momento da conversa. Eu melhor me recostei na cadeira, como quem via um espetáculo. "Me chamaram, mãe, é uma novela. Sim, da Globo. Das seis, não das oito. Sabe, disseram que a vaga é minha, mas eu preciso emagrecer. Todo mundo engorda na frente das câmeras, sabe?". Sem nem ao menos disfarçar, medi a garota da cabeça aos pés. Os seios eram perfeitos, ainda que um pouco desproporcionais ao seu corpo muito magro. Ela não engordaria na frente da câmera nem se comesse um boi. Estranhei. "Não tenho tempo pra fazer dieta, Mãe. Eu preciso de um remédio. É, um remédio. Não posso comprar aqui, precisa de receita, e a senhora tem contato com um cara da farmácia aí no interior... sabe, na cidade grande ninguém é amigo do dono da farmácia, não dá pra pedir esse tipo de coisa, eu preciso desse remédio, mãe..."

Eu estava entendendo. Ou quase. Remédio? Eu precisava de um último aviso, uma última prova para a constatação final. Era como um filme.

"Obrigado, Mãe. Não, Mãe, não vou voltar pra casa, aqui é meu lugar, eu descobri. Você vai me ver na TV logo, é com atores famosos, você vai gostar. Ok, mãe, um beijo, obrigada!". E desligou. Suspirou e recostou no banco, tranqüila. Desiludido, desisti.

O ônibus parou, nesse momento. Era meu ponto, meu momento de descer e esperar o dia nascer pra esconder a podridão que a noite esclarecia. Levantei. Passei pela garota, e acidentalmente, esbarrei em sua perna, no meio do corredor. Ouvi um baque seco. Olhei para o chão.

Uma caixinha de remédio, tarja preta. Virada para cima e rindo da minha cara. Olhei nos olhos da garota. Não era maquiagem. Estava mesmo roxo. Ela retribuiu o olhar, em pânico. Tentei ser complacente, mas um sorriso não saiu. Nossos braços, ao mesmo tempo, se dirigiram ao chão para pegar a caixa, e eu soltei um sincero "deixa comigo". Consegui ver seu braço esticado. Menos a dobra do antebraço, que estava coberta por uma ferida roxa. O resto da pele estava salpicado de furinhos minúsculos. Peguei a caixa. Quase vazia. Minhas provas, para comprovar minha teoria, apareceram nos acréscimos. Depois dos créditos, como num bom filme.

"Obrigada", ela sussurrou. Sorri torto. "Tudo bem". Segurei meus olhos nos dela por mais dois segundos, e saí. Era sempre assim, eu nunca sabia onde as coisas iam parar. Parei de me preocupar, provavelmente esqueceria a história na semana seguinte. Pus-me a andar, por sobre a podridão dos muros de concreto, fazendo o possível para não me jogar nela, de cabeça."

sábado, 11 de setembro de 2010

Novo Prazer

É comum ter medo do novo, tão comum quanto ter vontade de esquecer o velho. Não sei definir se é um paradoxo, para mim são duas coisas totalmente distintas. Sempre pensei que há um 'ponto de compensação' na nossa vida, sabe, podemos ficar entre o velho e o novo, podemos simplesmente ficar.
Claro, é o jeito mais chato de viver.
À parte disso, queremos esquecer o velho justamente porque é velho e gasto, já não é mais confortante. É só chato. E o novo... bom, é novo, não dá pra saber o que esperar, e por mais convidativo que pareça sempre ficamos com um pé atrás.
Mas, por favor, se alguém estiver lendo. Vamos viver logo o novo, porque o velho já deu no saco.

Adoro escrever coisas óbvias.




"'Você vem?' A pergunta tinha uma musicalidade sublime nos ouvidos da garota. Aguçava ainda mais seu sentimento impetuoso, suas loucuras. Se segurou, mas sabia que não aguentaria muito mais. 'Pra onde?' perguntou. O rapaz chegou um pouco mais perto, e colocou carinhosamente a mão em seu pescoço, alisando os cabelos que lhe cobriam a nuca. Os pelos de seu corpo gritaram, desconcertados. 'Comigo' ele respondeu. Pronto. Lá estava ela, a um passo da perdição. Sabia que não era o certo, mas era impossível. A partir dali, o cenário do lado de fora do colégio deixou de ser calçada cinza e virou um plano de fundo onírico, entre o azul e o vermelho. Ela fechou os olhos e segurou um suspiro que ela sabia, seria longo demais. Tentou não pensar com o entre-as-pernas, tentou pensar com a cabeça, com a razão. Tentou. Se esforçou.
'Não posso' respondeu com um resmungo. Ele sorriu um sorriso amarelo, chegando um pouquinho mais perto. Não ia insistir, e ela sabia que ele não ia insistir. Ficaram por um minuto em silêncio, apenas a respiração ofegante da garota afagava o rapaz, enquanto a dele continuava completamente sóbria. 'É só uma criança' pensou. Sorriu amarelo de novo com o pensamento. 'Tudo bem então' disse por fim. Se aproximou do rosto da menina e deu-lhe um beijo no canto da boca. As pernas jovens e cor-de-rosa estremeceram e bambearam. Foi a despedida. Virou as costas e ainda deu-lhe uma última olhadela por cima do ombro, antes de seguir seu caminho, deixando a menina ali parada. A calçada retomava seus tons originais de cinza forte e bege desbotado, enquanto ela ficaria ali. Estática, úmida e perdida em seus próprios sonhos.



-Um sonho que acordado é muito mais que dormindo-.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Map of the Problematique

Não é incomum pensarem que não ver o lado otimista da coisa é ser infeliz. Não vou dizer que é simplesmente ver a realidade, apesar de ser o que penso. Pra mim, não ver o lado otimista da coisa é não tentar achar soluções em demasiado. Lembro-me de ouvir alguém dizer que tentar explicar a vida é muito pior do que vivê-la (provavelmente quem disse isso queria dar um tom mais profundo à frase do que o que eu utilizei, mas ainda sim...). Sendo assim, não consigo nem imaginar quantas vezes é melhor deixar as coisas como estão do que tentar sintetizar todas as respostas do mundo numa única ação.
Covarde?
Um pouco.
Mas pelo menos estou tranquilo.


"'Agora' a voz da garota soou rouca e ofegante, oprimida pelo peso do garoto sobre seus seios. A volúpia luxuriosa dançava livremente por entre os poucos móveis do quarto sujo e velho. 'Quase, só mais um momento' a garota suplicava entre gemidos pelos movimentos repetitivos das ancas do rapaz, sempre ritmados, cada vez mais rápidos.
Ele não ousava proferir uma só lúcida palavra. Em seu corpo, o desejo massacrava qualquer tipo de razão, e tudo que se sobressaía era o roçar de suas mãos pela pele macia das curvas da jovem. O corpo que ele tocava jazia em completo êxtase, rígido, a não ser pelos lábios, que eram pressionados por seus dentes, contendo a chegada avassaladora de um gozo intenso.
Desistiu de segurar. A moça apertou as costas do rapaz e soltou um gemido alto e arrastado, deixando escapar todo o ar de seus pulmões. No corpo do rapaz, o desejo ainda massacrava a razão.
Em seu corpo. Mas não em sua mente.
Em sua mente, a idéia estava clara e cristalina, e a lucidez trabalhava sem descanso. O plano estava lá, fresco e decorado. Pegar o objeto debaixo do travesseiro, sob a cabeça dela. Era a parte difícil. O resto era simples.
Não parou as estocadas, prolongando o grito louco da garota, e lhe dando tempo suficiente para encontrar seu próprio desejo debaixo do travesseiro. Sentiu-o. Segurou a lâmina reluzente, e numa última estocada, apunhalou o pescoço pecaminoso da moça, interrompendo o mais animalesco dos orgasmos, empurrando de volta à seus pulmões frios o resto do ar que ela insistia em soltar. A palidez tomou conta da face de ambos, enquanto do rosto de um deles, escapavam tosses de sangue, sujando os lábios agora roxos, e fazendo o mais belo contraste com sua face alva. As tosses prosseguiam. Sempre ritmadas. Cada vez mais lentas.
O rapaz aguardou a morte da garota antes de terminar seu próprio ato sexual, agora sombrio e mórbido. Proferiu seu próprio suspiro, e deitou ao lado do cadáver.
A Volúpia luxuriosa encerrou sua dança, se dirigiu até a porta, abriu-a. Observou a Vingança entrar devagar, deu-lhe boas vindas e saiu, a passos largos".



-It seems so unlikely in this day and age-.

domingo, 29 de agosto de 2010

Leave Before the Lights Come On

Lúcido, porém cruel. No fundo gosto de ler coisas desse tipo, e acabei de me deparar com uma. Piegas, porém real. Dizem que amar é simplesmente se importar com a felicidade do outro, não importa o quão doloroso seja para nós. Pode ser verdade, pra mim, amar é realmente se importar com a felicidade do outro. Mas a partir do momento em que você está excluído dessa felicidade, ou não é mais o suficiente para fazer a outra pessoa alcançar essa felicidade, não tem como não ficar no mínimo chateado. Aí entra a auto-preservação.
Mas, mais do que isso, se uma pessoa deixa de te amar, assim, de uma hora pra outra. O que isso quer dizer? Segunda essa teoria, quer dizer que ela já não se importa mais com a sua felicidade e está agora em busca da felicidade dela própria. Isso mostra um completo corte de relação.
Não?
Lúcido, porém cruel.
No fundo, acho que esta teoria está furada.




"'Até quando vai ser assim? Você sabe que foi você quem criou isso, não foi? Sabe que tudo que estamos passando é fruto da sua insegurança, da sua falta de caráter, da sua auto-preservação idiota. Sabe que não precisava ser assim, que não era necessária tanta tempestade em copo d'água, que as coisas sempre voltam pro seu lugar. Não dá mais, você sabe que não dá, eu sei que não dá. O que fazemos agora? Damos as mãos e fingimos que está tudo bem? Porque é isso que sempre fazemos, sempre atropelamos qualquer orgulho ou qualquer solução socialmente aceitável. Colocamos uma pedra no que passou e pronto. Depois vem as cobranças. E as desistências. Não dá, definitivamente não dá, me diz, até quando vai ser assim?'
As palavras atropelaram a língua da garota e se desferiram como baques surdos na face do garoto. Soaram cansadas, desesperadas, e não dramáticas. Ele se levantou e virou-se em sua direção.
'A gente não tá mais sozinho.'
Foi único jeito dele explicar a ela de que não via solução.
A garota concordou. Virou as costas e se foi."



-Por quanto tempo só nós dois?-.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Feeling this

Esquisito como perdemos o interesse nas coisas. E chega sem avisar, sempre. No fundo, odeio quando isso acontece, odeio ser uma pessoa muito recorrente, ambulante, mutável. Preferia ficar do mesmo jeito sempre, traria menos problemas e mais certezas.
Querer nunca foi poder, dizem.


"Um sorriso um pouco torto encheu os olhos da menina de brilho. Ela gostava daquele sorriso. Se sentia segura, ainda mais quando ela mesma o provocava. Chegou um pouco mais perto do garoto, e se recolheu em seu peito. Estavam deitados num pequeno sofá, no alto de um apartamento iluminado apenas pela luz da lua. 'O que nos trouxe até aqui?' o garoto tirou o sorriso do rosto. 'O que?' ela fechou os olhos e beijou seu peito. 'Medo ou coragem?'. Ela abriu os olhos, levantou a cabeça e fitou suas pupilas. Ele repassou os últimos meses na cabeça. O modo como se conheceram, como ela o encantara. Lembrou de como queria sentir seu beijo a todo momento. Olhou de volta em seus olhos. Esperou-a insistir. 'Hein?' 'O que?' 'Medo ou coragem?'. 'Talvez nenhum dos dois' sibilou.
Ela estranhou. 'Nenhum?' 'Nenhum' ele concluiu.
A garota sorriu, beijou-lhe levemente os lábios e recostou a cabeça novamente em seu peito, bem a tempo de ver surgir na boca dele o mesmo sorriso torto.
'Talvez nenhum dos dois.'
Era tudo que ela precisava ouvir."


-Come as you are -..

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Todas as Noites

Ia ser totalmente fantástico se a nostalgia do verão fosse esquecida no inverno, ou se a ordem natural das coisas se alterasse quando necessário. Ou se qualquer prova passasse desapercebida, ou se as pessoas cuidassem mais de si próprias do que dos outros, quando não fosse requerido.
No fundo é uma merda, mas a gente se acostumou.
Chorar por isso é que não dá né?
Melhor se acostumar logo e dá tudo certo.


"Tente imaginar. O céu está estranhamente claro, há uma lua enorme e cheia, bem visível. Mas não é convidativo. Consegue imaginar? Uma ou outra nuvem, fazendo um gracioso contorno em volta da lua. E estrelas, o máximo que as luzes da cidade nos deixam ver. Salpicadas no lusco-fusco azul e negro. Está acompanhando? Uma das estrelas olha em volta, tenta brilhar com um pouco mais de intensidade, como quem quer chamar atenção. pisca uma, duas, três vezes. Desiste. A lua olha, e se balança, triste. O vento do leste se faz presente, ruidoso e um pouco assustador. Chacoalha a estrela. Ela se recompõe. Consegue visualizar? A estrela pequena, tentando ser lua, se esforçando cada vez mais pra ser notada. E dá uma pirueta, duas, três vezes. Nada. Uma nuvem a encobre. Passa. Ela olha de novo, primeiro para os lados, depois para baixo. Se apaga um pouco. E uma lágrima escapa em forma de chuva, uma, duas, três vezes. Ela as enxuga. E cai. Bem na minha frente.
Acompanho o ocorrido. Baixo o olhar e ouço o baque surdo da pequena estrela. Sinto cheiro de sal e noite. Cheiro de tristeza.
Conseguiu imaginar? Então me responda;
Custa tentar ser apenas o que se é?"



- It's coming down -.

domingo, 8 de agosto de 2010

Get Off of My Cloud

É curioso. Já perceberam que a palavra 'Romance' tem dois sentidos que cabem num só. Um filme de amor, com uma história de amor, frases de amor e todas essas melosidades são encontrados nas prateleiras de locadora na parte de 'Romance'. Ninguém discorda, certo?
Certo.
Num livro, quando vemos a palavra 'Romance' escrita na capa quer dizer alguma coisa fictícia, não real, que não realmente aconteceu. Certo?
Certo.
Seguindo essa lógica, um 'Romance', com histórias de amor, frases de amor e todas essas melosidades estaria muito próximo do segundo conceito de Romance. Ou seja, nunca existiria.
Tá, chega de blábláblá. O ponto é; acho que um romance é realmente um romance. Quase não acontece, é praticamente ficção, sempre. Não tem mais espaço pra eles na vida real.
Um romance é um romance.
Gostei disso.
Sou dramático, eu sei.




"E eu me recuso. Me nego, com todas as minhas forças. Não só nego a mim como nego aos outros, me nego a fazer coisas pros outros. Faço as coisas pra mim. E só pra mim. Vejo pilhas e pilhas de livros ao meu lado. Jamais irei lê-los, tenho nojo de tocá-los, cheios de palavras. Palavras não são mais do que sentimentos cuspidos, os piores. Me nego a viver essa vida. Me nego a me calar. Mas me nego a me revoltar. Me nego a tudo. Me nego aos contatos, às frases prontas, desisto dos sorrisos e de suas ferrugens, desisto das manhas, das manhãs, das maças e das maçãs. Desisto da música. Dos sons. Das imagens. Desisto dos sentidos, principalmente do paladar, a mais doce das frutas tem gosto de carpete velho. Nossa existência de gosto de carpete velho. Eu sou um carpete velho. Não, me nego a ser um carpete velho. Me nego a subir a rua, me nego a descer a rua, me nego a me importar. Me nego a sentir tristeza, torpor, me nego a me render a qualquer sutileza ou agrado. Me nego a acreditar, me nego aos oblíquos, me nego aos professores e aos alunos. Me nego às ordens e às rebeldias. me nego a saber o real sentido da palavra 'negar'. Só me nego. Só isso.
Na verdade, me nego a amar.
O resto é consequência."



-I might be a paranoid, but not an android-.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Where I End and You Begin

E as coisas continuam acontecendo de maneiras absurdas. Pessoas tomando decisões completamente inesperadas. Entreouvi uma vez, não lembro onde: "é próprio dos sábios mudar de opinião". Claro, mas também é necessário o mínimo de personalidade, a não ser que sua personalidade seja "mudar de opinião diversas vezes".
Mas aí seria uma personalidade fraca hehe.
Tá, reflexão idiota.



"'Tem alguém aí?' A pergunta saiu ecoando por entre as árvores, corrimões, degraus de concreto e pedaços de terra. Um ruído metálico havia, há pouco, invadido abruptamente seus ouvidos, como se machucasse um dos imensos canos. Olhou no relógio. Três e vinte da manhã, e a lua quase inteiramente cheia. Era uma praça estranha, nunca havia estado ali de noite. Não sabia se podia chamar de praça, era mais um barranco, com alguns bancos e uma escada para subir, fazendo caminhos tortuosos por entre a folhagem. Não sabia ao certo como havia chegado daquele lado do bairro, a verdade é que suas andanças noturnas estavam passando do limite. 'Só mais essa noite', ele sempre pensava.
'Tem alguém aí?' Repetiu. Sem resposta. Estava prestes a desistir seguir andando quando novamente, o som, mais alto dessa vez. Parecia um diapasão desafinado, foi a melhor definição que ele encontrou. Agora o som o assustou, fazendo sua espinha estremecer um momento. 'Tem alguém...' desistiu. Resolveu subir. Passos rápidos para não desistir no caminho. Parou no décimo degrau. A copa de uma das árvores baixas balançava com o vento, de modo que ricocheteava em seu braço, vez ou outra. Por um momento, quem visse de baixo não saberia o que era ele o que era praça, tamanha a escuridão. Talvez nem ele próprio soubesse o que era ele e o que era praça. O som se fez novamente presente, ainda mais forte, mas não mais próximo. O garoto olhou em volta. 'Por favor' já era uma súplica. O ruído veio novamente. E mais uma vez. E outra. Ficou ritmado. Lento, mas ritmado, uma mesma nota. Ecoava cada vez mais alta, fazendo a cabeça do garoto doer. Levou a mão aos ouvidos. 'Chega, chega!' Quis sair correndo, quis ir embora. Ajoelhou no chão. Agora o som sufocava o som de sua respiração. Mais alto e mais alto, agora mais perto, até o momento que, junto com o ruído metálico, uma fagulhada atingiu sua cabeça, lhe dando a sensação de que seu próprio corpo era o flagelado, e todo feito de cobre ou ferro. Caiu. O garoto gritou, soltou um berro do fundo das entranhas, em completo desespero, antes de cair, totalmente inconsciente.

***

A garota chegou um pouco mais perto do primeiro degrau da praça. Aquilo a fascinava, a beleza da grotesca vegetação urbana. Contemplou por um momento. Estava prestes a ir embora, quando um som estranhamente metálico soou do centro da praça, seguido por um grito abafado e opaco. Ela esperou um momento. 'Tem alguém aí?' perguntou?
Nenhum som. Havia sido o último.
A garota deu de ombros, e recomeçou a andar.





A gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu?-.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Depois do Começo

Enfim de volta. Não que eu não goste de estar fora, comentei disso no último. Só prefiro aqui, assim. Aconchego, talvez. É bem verdade que se paro e fecho os olhos, consigo sentir o balanço de uma turbulência leve, culpa daquelas malditas doze horas de avião.
Mas não dá pra falar que não serviu pra nada. Lá era distante e diferente, mas serviu pra eu entender um pouquinho mais as pessoas daqui mesmo, que eu julgava saber perfeitamente como eram.
A distância corrói, mas é um ótimo psicólogo, dizem. Prefiro não ter esse analista, por mais funcional que seja. Bom, como dizia um velho amigo meu que a distância corrompeu:
Cada um acha o que pensa.



"O garoto parecia seguir suas próprias pegadas, deixadas há algum tempo naquele pedacinho de céu. Pisava cuidadosamente por cima da grama, sentindo o fofo farfalhar das folhas sob seus pés. O sol ainda pairava no céu, num início de fim de tarde. 'Início do fim' repetiu mentalmente o garoto. Lhe encantava, o paradoxo. Continuou caminhando por mais algum tempo, até conseguir atravessar a pracinha onde se encontrava. Fez questão de sair pulando o portãozinho de madeira, como costumavam fazer. Agora já era possível ouvir o barulho calmo das ondas beijando as pedras. Não era um lugar bonito, ele tinha de concordar. Talvez poético, mas não bonito. Logo após o portãozinho, se estendia um extenso corredor de terra batida, que terminava num muro baixo. Aquele era o lugar.
Demorou um pouco para começar a atravessar o caminho de terra. Resolveu tirar os sapatos, só para sentir o chão quente. O fez. algumas pedrinhas de passado irritaram seus pés. Uma fagulhada de saudades atingiu seu peito. Ele prosseguiu.
Não fazia muito tempo, é verdade. Um ano, talvez dois. Parecia menos. A ferida ainda estava ligeiramente aberta em seu peito. Prosseguiu pelo caminho, fazendo força com os pés para deixar marcas. Lembrou das risadas vitoriosas de quem conseguia deixar a maior pegada. Ele sempre deixava ela ganhar, e ela sempre soube. Era uma competição totalmente fajuta, e ele não se importava em perder. Agora estava bem próximo ao muro de pedra. Olhou para o céu, a fim de checar através do sol quanto tempo ainda lhe restava. Agora ele já ameaçava se esconder no fundo do mar, o que fez com que o garoto corresse um pouco. Enfim chegou.
O muro estava exatamente igual como eles haviam deixado da última vez. Frio. Frio, mas carregado. Carregado de sonhos e sentimentos. De promessas. Carregado de histórias. Hesitou por um momento, mas sentou. Olhou para baixo. A queda devia ser de mais ou menos dez metros. Sentou de modo que seus pés ficassem pendurados à mercê dos ventos, balançando sobre as rochas e as ondas agitadas. Era a visão mais bela que ele já tivera do mar.
Ficou ali, contemplando o início do fim por um momento, até criar coragem para apalpar os bolsos. Colocou a mão relutante lá dentro e acariciou o objeto pequeno. O anel parecia pesar muito mais do que realmente pesava, muito mais do que no dia quando ele havia feito as promessas mais loucas de sua vida. Aproximou o anel da boca e disse baixinho, como uma confissão:
'Eu ainda sinto sua falta'.
Atirou o anel no mar, e observou a pequena jóia ser levada por uma marola tranquila e bater contra uma das rochas. Uma lágrima fujona escapou do rosto duro e frio do garoto. Ele a enxugou rapidamente, antes que o muro, o mar ou as rochas a vissem. Então levantou o olhar para o céu. O sol se despediu, solenemente, e se pôs, debaixo d'água, bem ao lado do anel. O garoto retribuiu a despedida e nunca mais voltou."




Nem a distância é capaz de apagar a nossa história-.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Turnê

"Mas meu vício impede minha felicidade". Quem ouve pensa que eu sou viciado em sei lá o que. Na verdade, meus amigos dizem que sou viciado em fazer amigos. Não sei se é bem isso, acho que sou viciado na relação com as pessoas, em conhecer pessoas novas, pessoas que vão me ensinar coisas novas ou me fazer viver coisas novas...
É difícil passar um tempo fora de tudo isso, ainda mais tendo esse vício.
Ah, para de reclamar, imbecil, é só uma viagem.


"A carta era uma miscelânea de tristeza e alegria que não cabia dentro daquele corpo. Olhou e reolhou o papel, pra se certificar de que estava tudo certo. Recostou na cadeira, satisfeito. Resolveu reler. 'Não é tanto tempo assim' ele havia escrito. Era verdade. Claro que pareceria muito, muito mais tempo, ainda mais quando ele estivesse pra voltar, mas ele iria sobreviver. 'Vou lembrar de vocês cada minuto'. Dramático, como ele gostava de ser, mas tinha parte de verdade. Ia lembrar mais 'dela' a cada minuto, mas isso não precisava ser externado. Continuou a correr os olhos pelo papel. 'Aproveitem aqui por mim, como a gente sempre faz'. Era seu último pedido.
Encostou a carta. Não queria se alongar em despedidas, afinal não era tanto tempo assim, ia se lembrar deles (e dela) a cada minuto e eles iam aproveitar todo o tempo que tivessem. Ia ficar tudo bem. O garoto abriu um sorriso e ameaçou levantar. Desistiu. Pensou por um momento, olhou ao redor para se certificar de que estava sozinho. Pegou a caneta cautelosamente, e com um cuidado confidencial escreveu, embaixo de tudo, a única coisa que faltava ser dita.
'Vejo vocês em breve'.
Esse era o desejo mais sincero de todos."



-Todos os meus amigos voam.-

quarta-feira, 30 de junho de 2010

A Dustland Fairytale

Não adianta lamentar, dizer que não é como era pra ser. Eu pelo menos acho que não. Mesmo porque, se está assim, provavelmente era mesmo pra ser assim. Não importa.

Na verdade, hoje é quase uma resposta.



"'Mas não existe ninguém que olhe uns dois anos pra trás e não se ache um completo idiota'. Não me espantei com a frase, ainda mais vindo de um certo amigo, famoso por suas colocações. É uma meia verdade, pensei. Sai da roda de conversa e voltei andando pra casa aquele dia. Pensei em mim há dois anos atrás. Como eu imaginei, surgiu na minha cabeça a constatação: 'que completo idiota'. Não pelo que pensava, mas pelo jeito como agia. Claro que depois disso me deu um certo arrependimento de pensar assim. Comecei a me comparar. Eu era um sonhador, definitivamente ainda maior do que sou hoje, era um revolucionário (pelo menos no que se dizia respeito a mim mesmo). Era o oposto, era o contrário do contrário do espelho dessa sociedade. Era eu, e isso bastava. E agora? Agora não sou mais eu? Ou agora meu Eu virou 'Eles todos'?
Apertei um pouco o passo. A rua agora parecia me sufocar com todas suas ideias e razões e modos de pensar. Olhava para os lados na esperança de encontrar alguém que talvez pensasse como eu. Idiotice, todos pensavam como eu porque eu pensava como todo mundo. Apertei o passo um pouco mais, minha cabeça rodava de indignação, indignação de constatar tarde demais que a roda vida me consumia. Passei a olhar para o chão e trombei com um homem engravatado. 'Desculpe', balbuciei. Sem resposta, talvez não estivesse ouvindo. Com certeza não estava ouvindo. Uma vontade repentina de voltar a ser o completo idiota que eu era há dois anos atrás assolou minhas entranhas. Voltei a fitar o chão e a andar cada vez mais rápido, até me ver correndo, quase arfando, fitando todo o lixo que havia na calçada da minha existência. Trombei com mais duas ou três pessoas, já não importava mais. Não levantaria a cabeça por nada naquele mundo.
A não ser que fosse aquele par de all star.
Era branco e comum. Eu continuava olhando pra baixo, fitando-o. Subi um pouco o rosto, conseguindo ver a barra do jeans surrado. O corpo a minha frente me impedia de continuar a corrida. Estava parado, assim como eu. Não. Eu estava estático.
'O que você tem?' ela perguntou, com uma voz quase preocupada. Subi a visão e olhei seu rosto pela primeira vez. 'Hein?' ela insistiu. Quis falar, quis mostrar toda minha raiva do mundo, quis mostrar a completa idiotice que provavelmente seria sua vida, quis mostrar como não temos escolha a não ser impulsionar por mais alguns anos essa maldita roda da fortuna que chamamos de 'Terra'. 'Não sei', foi o que consegui responder. A menina sorriu. 'Vamos tomar um sorvete? Minha mãe disse que no frio faz menos mal que no calor'. Sorri de volta. Minha cabeça ficou vazia de pensamentos ao pensar na massa gelada a minha espera. 'Claro', assenti. Naquele momento, eu sabia que tomar um sorvete com aquele par de all star era exatamente o que eu tinha que fazer.
Preocupação. Acho que essa é a verdadeira 'falta' que nos sobra.






-This is the world that we live in.-

terça-feira, 29 de junho de 2010

You Could Have it So Much Better

Uma hora as coisas param, ficam estagnadas. Seja a euforia de uma copa do mundo, seja a euforia de um amor que ainda engatinha, sejam as desavenças amareladas pelo tempo. Uma hora nada disso mais importa, os assuntos mal resolvidos continuam não resolvidos e já não nos importamos com isso.
Acho que é isso que chamam 'amadurecimento'.



"'É hora de arrumar sua própria bagunça'. A figura conhecida repetia exaustivamente a frase. Era um sonho, disso eu tinha certeza, até podia sentir as bordas de meu campo de visão um pouco embranquecidas, fazendo a cena ganhar um ar um tanto quanto 'celestial'. 'É hora de arrumar sua própria bagunça'. O garoto disse mais uma vez. Já estava ficando desconcertado. Havia assentido da primeira vez, mas parecia que a mensagem não parava por ali e eu não estava conseguindo entender. 'Que bagunça?' perguntei. A figura riu, me deixando em um misto de raiva e constrangimento.'Sua bagunça, tudo aquilo que está em suspenso. As discussões, as respostas, os pensamentos. É hora de colocar tudo onde deveria estar, as coisas não podem ficar como estão'. Entendi. Os últimos meses se projetaram na minha mente, parecendo imaturos e pobres. Tive raiva, do que fiz e do que não fiz. Não havia nada que me trouxesse mais desgosto no mundo do que lembrar daquele passado. 'O que eu tenho que fazer?' perguntei determinado. 'Procure-os, converse com eles, brigue mais, se necessário. Arranje um final, mesmo que não agrade ao público.' 'Que público?' pensei. Pro inferno com o público. Procura-los? Jamais, não de novo. Sem mais brigas ou falsos entendimentos. 'Não.' Respondi ao menino à minha frente. 'Não?' eu o confundira. 'Como não?' 'Eu achei que fossem novos tempos.' expliquei. 'Novos tempos nos quais não importa mais o passado.' O garoto refletiu por um momento. 'Novos tempos?' ele ainda custava a entender. 'E não tem medo dos novos tempos?' 'Tenho, claro que tenho' respondi sincero. 'Mas já estou vivendo, não posso mais voltar atrás. Os tempos são sempre novos, a cada segundo, é anti-natural viver o passado.' O garoto pensou mais um momento e perguntou desconcertado 'E a sua bagunça?' 'Pro inferno com minha bagunça.' Aconteceu um sorriso solitário. Outro, logo em seguida. Os dois se encararam por um breve instante. 'Então está bem'. A figura do garoto foi se misturando vagarosamente às bordas brancas no canto dos meus olhos, cada vez mais, até tudo se perder em sua imensa branquidão, me fazendo acordar. Acordar para os novos tempos.



-Living is easy with eyes closed.-

domingo, 20 de junho de 2010

Pra Manter ou Mudar

Não dá MESMO pra ficar pensando que as coisas vão ser as mesmas pra todo sempre. Acho que o meu problema é pensar que nem as coisas boas devem durar por muito tempo. "Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.". Sempre gostei mais das coisas quando elas acabam, acho que tudo fica mais bonito quando acaba. Até o Michael Jackson xP

Sei que estou passando por uma mudança agora, e até que estou gostando disso haha. Só cuidado pra não quebrar a cara. Na verdade eu não funciono pensando no futuro, então vou só vivendo...
Perdi a hora, lamento.


"Do mesmo modo que foi, voltou. A rua estava um bastante mudada, a quantidade de prédios havia praticamente dobrado nos últimos anos, e as pequenas casinhas que fizeram parte de sua infância existiam apenas na memória. Andou mais alguns passos, olhando o entorno. Torceu o nariz. Sempre achou que edifícios não combinavam com ruas sem saída. Na verdade, a rua não era exatamente sem saída, mas terminava em uma pracinha, que por sua vez ficava em cima de um pequeno barranco. Era possível descer o barranco e chegar em uma rua próxima. Quando criança, fizera aquele trajeto dezenas de vezes, e era uma verdadeira aventura.
Andou até a praça. Os balanços que outrora o elevaram aos céus estava praticamente em cacos. A gangorras frias de metal agora haviam sido substituídas por outra, de plástico, com adesivos que indicavam à qual dos condomínios pertenciam, e as árvores, forradas de dizeres e juras de amor feitas com gizes coloridos, haviam sido raspadas. Apenas a grande seringueira ainda jazia imponente. Triste.
Girou o corpo, um pouco contrariado, e voltou à rua. Lembrou de quantas vezes havia ralado os joelhos brincando de pique, lembrou tão profundamente que lhe deu vontade de sentir o paralelepípedo quente em sua pele. Se abaixou, encostou a mão cuidadosamente no chão, e fechou os olhos. Uma energia lhe subiu pelo braço, até se instalar em seu peito, fazendo sentir cada momento vivido há anos atrás. Sorriu. Se levantou.
Havia apenas um sobrado conhecido na pequena alameda. Um sobrado que ele conhecia bem, e era seu destino. Suspirou um suspiro longo e começou a caminhar, pé-ante-pé. Parou em frente ao portão, tentando pensar no que estava por vir. Imaginou um abraço caloroso, talvez um choro de saudade, que não seria de todo ruim. Um pouco cinematográfico, mas não de todo o ruim. O sol se punha atrás da casa. Talvez fosse melhor se apressar. Tocou a campanhia, ansioso. Ouviu um barulho de maçaneta, e a porta se abriu soltando um grunhido leve. Depois disso, o que era porta virou surpresa.
'Achei que você nunca voltaria'. 'Eu também achei'. A frase veio acompanhada de um sorriso torto. 'A rua está bem diferente', ele tentava puxar qualquer assunto. 'Está. Fazem vinte anos que você partiu'. 'Fazem vinte minutos que voltei', retrucou ele, tímidamente triunfante. 'Voltou?' a pergunta era esperançosa. O homem assentiu, e a velha senhora se sentiu satisfeita. 'Quer entrar?' perguntou. O homem queria. Deu um passo a frente. Parou. Levantou o olhar em direção à velha. 'Sim. Obrigado, mãe'. 'Está tudo bem', ela respondeu disfarçando as lágrimas. Pelo menos naquele momento, todos os prédios haviam sumido, e só o que havia eram crianças brincando e correndo em meio às casas, balanças e gangorrar de metal e seringueira. Tudo parecia de volta ao seu lugar.
E o sol, calmamente, se punha atrás da casa".


-Tá todo mundo dançando a nostalgia do verão.-

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Hard to Explain

É incrível, as pessoas me surpreendem cada dia mais. Surpreendem a todos nós, acredito, quando você menos espera sai aquela frase da pessoa mais improvável do mundo, e você fica com ela na cabeça por horas.
Tá, nem aconteceu, mas gosto de pensar desse jeito. Parece que cada pessoa, por mais quieta que seja, sempre tem alguma coisa a cabeça que por algum motivo a gente iria gostar de ouvir. Gosto de pensar que por trás de todos os medos e preocupações de cada um há um cantinho onde é possível se abrigar se necessário.

Pensamento ingênuo? Talvez, mas quem disse que não é bela a ingenuidade?

"'Chama My heart'. A voz do garoto soou decisiva. As duas amigas, que há tempos tentavam sem sucesso descobrir o nome de uma música que ressonava em suas cabeças, olharam quase surpresas. 'O que?' perguntou a primeira, um pouco incrédula. 'My heart', respondeu o garoto, satisfeito. 'é o nome da música'. A garota que havia arriscado algumas palavras agora começava a entender a situação. 'Ah... obrigada', respondeu ela corajosa. A outra não parecia muito confortável com o que acontecia, e apoiava a cabeça na parede, com olhos um tanto quanto desconfiados. Mas a amiga foi ainda mais longe.
'Qual é o seu nome?' ela perguntou, já perdendo a cautela. O garoto respondeu. Ela retrucou 'Eu sou Bia' e sorriu um sorriso sincero. O silêncio acobertou-os por alguns momentos, até a garota começar novamente. 'E então? Você gosta?' 'Gosto?' perguntou o garoto quase sem entender. 'Da música'. 'Ah, claro. É, gosto' respondeu um pouco desconexo. 'É realmente muito boa'. A garota sorriu novamente. 'Eu costumava cantar com algumas amigas quando era mais nova'. A amiga de Bia parecia mais desconfortável do que nunca. O garoto era um estranho, e ela temia que seu nome aparecesse na conversa mais cedo ou mais tarde. Não aconteceu.
'Legal', respondeu o garoto. Agora ele e Bia já pareciam velhos amigos. Não pelo tanto que conversaram, mas pelo amplexo criado no lugar. De uma hora para a outra, o ar havia ficado muito menos rarefeito, e o frio que fazia naquela tardezinha de outono, muito mais ameno. Conversaram por mais algum tempo, sobre coisas como o frio na semana anterior, uma notícia de jornal e os resultados da copa do mundo. Passado algum tempo, o garoto decidiu.
'Tenho que ir'. 'E a gente nunca mais se encontra?' perguntou Bia. 'Ah, se encontra...'. O silêncio mais uma vez tomou conta, dessa vez quase desesperador com a promessa mal fundamentada. Desta vez, a ausência de som foi quebrada por algo inesperado.
'Quer voltar aqui amanhã?' Era a amiga de Bia quem falava. Tremia um pouco, e sentia seu coração bater três vezes mais rápido que o normal. As palavras saíram vomitadas, tanto, que até o garoto foi pego de surpresa.
'O que? Ah..., bom, amanhã... sim, porque não?'. Sorriu, um sorriso torto. 'Mesma hora?'. 'Mesma hora', respondeu Bia, tímidamente alegre. O garoto olhou para a menina calada, esperando-a assentir. 'Mesma hora', ela disse, baixinho. 'Então ok.' O garoto se deu por satisfeito, virou calmamente e passou a andar, de volta para o seu caminho. 'O que deu em você, ficou quieta o tempo inteiro!'. Bia estava quase indignada. 'Não sei', respondeu a outra. Sentiu um calafrio e por algum motivo queria muito que o amanhã chegasse. Parecia um pouco mais segura agora, prometeu a si mesma que não ia se calar no dia seguinte. 'Você tá bem? Qual é o problema?'. 'My heart', a garota respondeu. Bia entendeu. E não mais perguntou."




-'I'm please to meet you, hope you gess my name.-

terça-feira, 15 de junho de 2010

Somewhere Only We Know

Parecia feriado, juro.Claro, vocês devem saber como foi. Jogo do Brasil é sempre uma festa.
É estranho, mas copa do mundo às vezes me dá vontade de chorar. Acho que comoção nacional me dá vontade de chorar, seja para o bem ou não, e nada que cause maior comoção nacional do que copa do mundo.

Foda-se, a melhor parte, com certeza, são as três doses de futebol por dia =D


"Era o último dia da primavera, e era inacreditável o quanto andara. Provavelmente o dobro do que andara durante todo o inverno. Arfava, enquanto se apoiava no expesso tronco da velha seringueira. Tomou o último gole de água que restava em sua garrafa, e encostou-a no pé da árvore. Sentiu o líquido confortar novamente sua garganta até suas entranhas. Sentou, para uma vez mais observar a paisagem que lhe era velha conhecida. Era um meio de nada, ele devia frizar. O campo não era árido, as flores eram vistosas, principalmente quando vistas dessa perspeciva, estando bem perto delas. Só havia aquela árvore. E o céu. O céu azul era uma parte realmente importante.
Era o último dia da primavera. Recostado sobre o tronco, a garota agradeceu com um sorriso a tranquilide que poderia ter agora. Arrancou cuidadosamente uma das flores do chão ao seu lado. Era um misto de azul e rosa que ela nunca havia visto antes. O cheiro era menos intenso que o das outras, provavelmente por já estar quase morta naquele pedacinho de terreno. Resolveu colocá-la graciosamente atrás da orelha, de modo que se confundisse com seu cabelo. Sorriu, novamente.
Era o último dia da primaveira. O campo que a garota conhecia há tantos anos estava mais bonito do que nunca. Ela claro, dizia isso todas as vezes que conseguia escapar da cidade para se recostar ali. Fechou os olhos por um momento, começando o ritual de voltar a pensar em sua vida real. Odiava aquele momento, especialmente aquele. Não que não gostasse de sua vida, mas era sempre ruim voltar. E naquele dia tinha algo a mais.
Era o último dia da primaveira. O que lembrava que no dia seguinte seria verão. E alguns meses depois, outono, e o campo se desnudaria novamente. E sua vida com ele.
Ela odiava aquele momento, especialmente aquele. Mas não mais que o outono. Porque no outono, as flores e folhas caem, os ventos se tornam mais cortantes do que nunca e parece não haver meio de esquentar os pés.
Porque no Outono, tudo morre.
Tudo.
A garota abriu os olhos e suspirou. Levantou devagar e olho ao redor, o entorno que tanto conhecia, bem a tempo de ver que finalmene ele estava chegando, com um sorriso, aquele que ela gostava. Não resistiu e sorriu de volta. Correu na direção do garoto e o abraçou por alguns instantes, fechando os olhos. E quando tornou a abri-los, percebeu. O céu ainda estava azul e as flores ainda estavam lá.
Ainda era o último dia da primavera."


-How can you know it when you don't even try?-

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Duas Cores

Faz um tempão. E garanto, muita, muita coisa aconteceu, tanta que nem vale a pena listar. Não sei bem o motivo de voltar, talvez não volte pra mais nada além deste, mas agora vou escrever e pronto.
É um daqueles momentos estranhos em que sinto que qualquer brisa um pouco mais forte pudesse me carregar pra longe. Claramente, deve ser a melhor sensação do mundo, mas ainda tenho medo de onde essa brisa pode me levar. Medo de que se torne uma ventania descontrolada. Acho que acima de tudo, tenho medo que a ventania passe, e tudo volte a ser como era antes:
A mesma merda.


É, acho que essa brisa tem nome.


"Em sua cabeça, era certo que viver aquilo era certo. Era mais certo ainda que, o certo de sua cabeça não era o certo para a cabeça dos outros. Era certo também que ele já não aguentava mais essa discussão, em forma de milhões de moscas varejeiras, dentro de sua cabeça. Parou de andar por um momento e sentou em um banco qualquer. Frio, no máximo dez graus. Lembrou da luva esquecida em sua gaveta. Um calafrio percorreu sua espinha e ele subiu mais um pouco o ziper, fechando inteiramente a gola do casaco.
Fechou os olhos. Ele sabia que a pergunta viria novamente. "Será?". Quis espantar a dúvida, seu coração acelerou por um instante, mas logo voltou ao normal. Sabia que não valeria a pena gastar mais tempo pensando no que já estava decidido. Balançou a mão perto da cabeça, como se quisesse espantar as milhões de varejeiras que o incomodavam. Se deu por satisfeito por alguns segundos. Sua mente estava quase vazia.
Quase.
Começou a pensar na razão daquilo tudo. Lembrou de todos os quais teve que passar por cima para chegar onde estava agora. Provavelmente ficaria com má fama. Claro, entre pessoas com quem ele não se importava. Lembrou dela. Um sorriso invadiu seu rosto, e antes que as varejeiras pudessem se recompor, uma pequena borboleta roxa pousou bem ao seu lado no banco. Abriu e fechou as asas, como numa saudação silenciosa. O garoto tentou aproximar a mão, devagar. Ela se fechou, amedrontada, ameaçou voar. Não o fez. Ficou ali. Tremendo. Se acostumando. O garoto tentou novamente, dessa vez conseguiu chegar mais perto. Cuidadosamente, apoiou o dedo bem ao lado da pequena mancha roxa. A borboleta bateu as asas lenta e graciosamente, o suficiente para subir no dedo.
Ficaram ali alguns segundos, o garoto estava deslumbrado. Foi quando uma brisa cortou seu rosto. Fria, mas agradável. O fez sorrir e fechar os olhos. A borboleta se segurou por pouco tempo no dedo do menino, para depois bater as asas e voar junto com aquele pedacinho de vento. Quando voltou a si, a borboleta não estava mais lá, mas bem abaixo do seu dedo, uma pequenina mancha dizia o que faria ele desistir de tudo que havia acontecido e ir atrás do certo. Do seu certo.
'Eu amo você'.
As varejeiras não voltariam nunca mais.



- Love you 'till the end. -